A Alimentação na Menopausa


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A Alimentação na Menopausa

Para a Organização Mundial de Saúde, uma mulher encontra-se em menopausa após a ausência consecutiva da menstruação por 12 meses, o que normalmente ocorre entre os 45 e 55 anos. Nos países industrializados, a média da idade em que ocorre a menopausa situa-se entre os 50 e os 52 anos, e um ou dois anos a menos nos países em desenvolvimento.

Pode-se definir a menopausa como a fase da vida da mulher em que cessa a capacidade reprodutiva. Os ovários deixam de funcionar e a produção de óvulos e hormonas como a progesterona e estrogénios diminui, consequentemente produzem-se no organismo diversas mudanças fisiológicas: algumas são resultantes da função diminuída dos ovários e de fenómenos menopáusicos a ela relacionados, outras resultam do processo natural de envelhecimento. Quando se aproxima a menopausa, muitas mulheres experimentam certos sintomas, muitas vezes passageiros e inócuos, porém não menos desagradáveis e por vezes incapacitantes.

Este conjunto de sintomas normalmente associados à menopausa podem ser relativizados, visto que se desenvolvem dentro de parâmetros sociais, económicos, culturais e étnicos muito distintos. Até mesmo as famosas ondas de calor, um dos sintomas mais característicos da menopausa, variam de cultura para cultura: 85% das mulheres europeias e norte-americanas experimentam ondas de calor, o mesmo só acontecendo com 17% das japonesas e em cerca de 5% das Maias da América Central. Os sintomas relacionados à menopausa estão intimamente relacionados com a forma como as diferentes culturas encaram o processo de envelhecimento; na sociedade americana, por exemplo, há a tendência de focalizar os aspetos negativos do processo: a doença, a perda da capacidade de se reproduzir, o declínio físico e mental ou a perda do status social, entre outros. Já em outras culturas, são enfatizados os aspetos positivos da mulher nesta fase: como a libertação da responsabilidade de ter filhos e das restrições sociais e culturais que às vezes são impostas sobre as mais jovens que ainda menstruam (OMS, 1996).
É ainda de referir que se considerarmos o facto de que a expectativa de vida das mulheres até o século XIX era de 38 anos, pode-se dizer que a experiência da menopausa é um acontecimento quase restrito às mulheres do século XX.


Principais sintomas

Embora nem todas as mulheres tenham sintomas durante a menopausa, estando a maior ou menor intensidade dos mesmos relacionado com as características físicas individuais, com os seus antecedentes culturais e ainda com a sua história familiar, há sintomas que aparecem com mais frequência em mulheres nesta faixa etária:

- Períodos menstruais irregulares: a menstruação pode não surgir todos os meses, pode durar mais ou menos dias do que é usual e a quantidade da hemorragia pode ser maior ou menor.

- Afrontamentos ou calores: manifestam-se por uma sensação súbita de calor no rosto e no pescoço, mas que, em alguns casos, pode afetar todo o corpo. Os afrontamentos podem fazer-se acompanhar de transpiração abundante e arrepios de frio.

- Distúrbios do sono: a mulher pode sentir mais dificuldade em conciliar o sono assim como em mantê-lo e ter suores noturnos, o que leva a que esteja mais cansada durante o dia.

- Problemas vaginais e urinários: as paredes da vagina tornam-se mais finas e secas devido aos níveis mais baixos de estrogénio, o que pode afetar as relações sexuais e a líbido. Por outro lado, como o estrogénio também ajuda a proteger a saúde da bexiga e da uretra, é possível que surjam infeções vaginais ou do trato urinário. Pode também ser mais difícil controlar a vontade de urinar.

- Alterações de humor, memória e concentração: a mulher pode ter mudanças de humor repentinas, estar irritável ou ter acessos de choro. Pode também ter falta de memória e/ou problemas de concentração.

- Osteoporose: a taxa da perda óssea aumenta o que tem como consequência os ossos tornarem-se mais finos e fracos, podendo levar a fraturas.

- Mudanças corporais: a cintura pode alargar e a mulher pode perder músculo e ganhar gordura.

Na Medicina Ocidental, o controlo dos sintomas da menopausa passa pelo uso de Terapia Hormonal de Substituição (THS), que diminui os afrontamentos, a secura vaginal e as alterações do humor.
Porém, esta terapia é contraindicada em algumas mulheres, nomeadamente em mulheres com risco cardiovascular significativo, bem como em mulheres com antecedentes de cancro da mama e do ovário especialmente se houver familiares do 1º Grau com cancro.
Para lá dos tratamentos hormonais, podem ser utilizados medicamentos de outras classes para controlar os sintomas. É também aconselhada a introdução de alterações no estilo de vida e na dieta, a prática de exercício físico e a redução dos níveis de stress.


MEDICINA TRADICIONAL CHINESA

Para a MTC, os problemas menstruais devem-se fundamentalmente ao declínio da Essência do Rim, que pode tomar a forma numa deficiência do Rim Yin ou do Rim Yang ou ainda numa combinação de deficiência de ambos, contudo é comum que a deficiência apareça em diferentes proporções, ou seja, pode haver predominância de sintomas de deficiência de Rim Yin ou de Rim Yang, existindo as duas em simultâneo.

No caso da deficiência do Yin do Rim é fácil entender a ocorrência de afrontamentos: quando o Yin está deficiente há a presença de calor vazio. Mas no caso de deficiência do Yang do Rim, como explicar os afrontamentos? Este sintoma aparece pelo facto de que quando o Yang do Rim está deficiente, o Yin do Rim também está em deficiência, embora num grau inferior e como consequência há a presença de algum calor vazio.
Assim sendo, numa mulher em menopausa, a presença de língua pálida indica que a deficiência do Yang do Rim é predominante, se a língua se apresenta sem capa (total ou parcialmente), há uma predominância da deficiência do Yin do Rim.

Apesar da deficiência da Essência do Rim ser sempre a raiz dos problemas da menopausa, é provável que ao longo dos anos que a precederam, tenha havido uma acumulação de outras patologias. Por esta razão a menopausa é muitas vezes acompanhada por outras patologias nomeadamente Humidade, Fleuma, subida do Yang do Fígado, Estagnação de Qi ou Estase de Sangue.

Pode-se assim encontrar a seguinte diferenciação de síndromes:

- Deficiência do Yin do Rim
- Deficiência do Yang do Rim
- Deficiência do Yin e do Yang do Rim
- Deficiência do Yin do Rim e Fígado com subida de Yang do Fígado (com presença de irritabilidade e sintomas de deficiência de Yin do Rim)
- Desarmonia do eixo Coração-Rim (deficiência do Rim Yin com calor vazio no Coração)
- Acumulação de Fleuma e Estagnação de Qi (mais comum em menopausas precoces)
- Estase de Sangue (mais comum em menopausas precoces ou pode acompanhar os padrões anteriores)





Dietética em MTC durante a menopausa

A Dietética é uma das especialidades terapêuticas da Medicina Tradicional Chinesa, é um auxiliar importante no apoio a outras terapias e indispensável na prevenção e tratamento de doenças. É essencial que o paciente seja sempre informado acerca da alimentação adequada para a sua patologia e da importância da alimentação para a manutenção da saúde, sob o ponto de vista da Medicina Tradicional Chinesa.

A alimentação a prescrever a cada paciente vai depender da síndrome que a paciente apresente e dos sintomas que ela mais anseie ver resolvidos. Há assim uma alimentação adequada a cada síndrome, alimentos que devem ser consumidos com mais frequência e alimentos a evitar, conforme os princípios terapêuticos estabelecidos:

Deficiência do Yin do Rim
Princípios terapêuticos: nutrir o Yin do Rim, subjugar o Yang, acalmar a mente e clarear calor vazio.
Devem-se evitar alimentos quentes, frios, o excesso de sabor salgado, os sabores picantes de natureza morna e quente. São aconselhados os sabores doce, salgado e ácido de natureza neutra e fresca e de cor negra pois os alimentos negros têm afinidade com o Rim.
Exemplos: trigo, millet, lentilhas, cevada, feijão preto, sésamo negro, nozes, cogumelo shitake, abóbora, cenoura, couve, mirtilo, uva, ameixa, gema de ovo, pato, algas, miso, peixe branco, lulas, chocos, sardinhas e salmão.

Deficiência do Yang do Rim
Princípios terapêuticos: tonificar e aquecer o Rim, tonificar Yang, aquecer o centro e fortalecer o Baço.
Devem-se evitar alimentos frios e de natureza fria assim como beber em excesso. São aconselhados alimentos de sabor doce, ácido, picante e salgado de natureza neutra, morna e quente e de cor negra.
Exemplos: nozes, castanhas, sésamo, aveia, millet, azuki, feijão preto, alho, couve, funcho, cebola, alho francês, salsa, gengibre, tomilho, canela córtex, cravinho, orégão, pimenta, framboesa, uva, ameixa, cereja, lichii, leite de cabra, pato, galinha, cordeiro, peixe branco e sardinha.

Deficiência do Yin e do Yang do Rim
Princípios terapêuticos: nutrir o Rim, nutrir o Yin, tonificar suavemente o Yang e acalmar a mente.
São aconselhados alimentos de sabor doce, salgado e ácido de natureza neutra e morna e negros.
Exemplos: nozes, castanhas, sésamo negro, azuki, gengibre fresco, raízes, cerejas, ameixas, uvas, lichii, galinha de ossos negros, vaca, rim de vaca ou cordeiro, pato, leite de cabra, camarão, peixe branco, sardinha, lulas e choco.
Podem ser introduzidos outros alimentos tendo em conta se a mulher apresenta mais sintomas Yin ou Yang.



Deficiência do Yin do Rim e Fígado com subida de Yang do Fígado
Princípios terapêuticos: nutrir o Yin do Rim e do Fígado, subjugar o Yang do Fígado, acalmar a mente e enraizar a Alma Etérea.
Esta é uma patologia mista, por esta razão, para além dos alimentos aconselhados para o vazio de Yin do Rim, devem ser introduzidos alimentos que tonifiquem o Yin do Fígado, são alimentos de sabor doce, ácido e salgado de natureza neutra e fresca, com tropismo para o fígado e de cor verde que tem afinidade com o Fígado.
Exemplos: trigo, centeio, sementes de girassol e sésamo, aipo, espinafres, agrião, grelos, nabiças, tangerina, maçã, uvas, tofu, algas, peixe Branco, pato e coelho.

Desarmonia do eixo Coração-Rim
Princípios terapêuticos: nutrir Yin do Rim, acalmar a mente, clarear calor vazio do Coração.
É também uma patologia mista e neste caso para além dos alimentos aconselhados para tonificar o Yin do Rim devem ser consumidos alimentos que clareiem o calor vazio do Coração: alimentos de sabor doce ácido e salgado, de natureza neutra e fresca, com tropismo para o coração e de cor vermelha que tem afinidade com o Coração.
Exemplos: cevada, trigo azuki, lentilhas, sésamo, girassol, amêndoas, aipo, abóbora, cenoura, hortelã-pimenta, uva, ameixa, morango, framboesa, algas, polvo, lulas e ovo.
 

Acumulação de Fleuma e Estagnação de Qi
Princípios terapêuticos: resolver a Fleuma, pacificar o Fígado, eliminar estagnação, regular os meridianos.
Neste caso vamos introduzir alimentos que eliminem a fleuma, são alimentos de sabor picante, amargo e salgado e de temperatura neutra, tal como o daikon, casca de tangerina, cogumelos, casca de maçã, dióspiro, agrião, mostarda, manjerona, rabanete fresco e alho. Deve-se evitar alimentos como lacticínios, açúcar, álcool, amendoins torrados, sumos, pão, banana e gordura animal. Deve-se ainda ter em conta que os alimentos propostos favoreçam o bom funcionamento do Baço, não devem ser alimentos frios nem de natureza fria, devem-se privilegiar os alimentos cozinhados, parar de comer antes de se sentir cheio, ingerir poucos líquidos à refeição e comer pouco à noite.
No que diz respeito a alimentos indicados para a estagnação de Qi, devem-se evitar alimentos quentes, secos e processados vão-se privilegiar as ervas aromáticas, comer mais vezes e em pouca quantidade, privilegiar os alimentos de sabor picante e de natureza neutra e fresca, como o açafrão, daikon, menta, coentros, rábano, rabanete, aipo, pepino, agrião, nabo, anis-estrelado e manjerona.

Estase de Sangue
Princípios terapêuticos: reforçar o Sangue, eliminar a estase, acalmar a mente, abrir os orifícios da mente, mover o Qi e eliminar estagnação.
Os alimentos aconselhados nesta patologia são aqueles que promovam o movimento de Qi e Sangue e que nutram o Sangue, são alimentos de sabor doce e picante e de natureza neutra e morna.
Exemplos: amazake, castanha, cebola, pêssego, caranguejo, esturjão, vieiras, vinagre, beringela, arroz, cevada, nabo, abóbora, feijão verde, favas, inhame, batata, cenoura, couve de Bruxelas, grão, orégãos e alho francês.

Há ainda a referir, que a prescrição alimentar baseada na Medicina Tradicional Chinesa por si só, não é suficiente para tratar uma patologia, é necessário compreender que a dieta prescrita faz parte de um conjunto de tratamentos que serão mais eficazes se forem sustentados numa sólida base dietética.




Imagens:

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Fontes:
Maciocia, G. (2011). Obstetrics and Gynecology in Chinese Medicine. (2ª ed.). Churchill Livingstone Elsevier

Pichford, P. (2002). Healing with Whole Foods – Asian Traditions and Modern Nutrition. (3ª ed.). California: North Atlantic Books

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902005000100010

http://www.scielo.br/pdf/psoc/v25n2/18.pdf


Artigo escrito e traduzido por Constança Castro, editado por Jorge Ribeiro