Fetiches

 

O termo fetiche deriva do francês – fétish, mas originalmente provém do português – feitiço, sortilégio, sacrifício, o qual, por sua vez, tem origem no latim – facticius que significa artificial, fictício, ou facere, que significa fazer;

 

O fétiche era um objeto que se acreditava que tinha poderes sobrenaturais, positivos ou negativos, ou em particular, um objecto feito à mão, com poderes sobre os outros. Inicialmente este conceito foi usado pelos portugueses, para se referir aos objetos utilizados nos cultos religiosos dos negros da África Ocidental. Este termo foi mais tarde introduzido e divulgado na Europa.



Segundo Freud, o fetichismo é um desvio do interesse sexual para algumas partes do corpo do parceiro, ou para alguma função fisiológica, ou para peças de roupa, adorno, entre outros.
Pode ser utilizado, quer para substituir o parceiro na atividade sexual, como ser integrado na própria relação sexual.


Sigmund Freud acreditava que o fetichismo sexual no homem (o fetichismo sexual feminino não foi abordado por Freud), era proveniente de 3 factores:

1. do medo inconsciente dos genitais da mãe;

2. do medo universal relativo à castração;

3. da fantasia masculina de que “a mãe tinha tido anteriormente um pénis, mas que tinha sido cortado”.


O fetichismo é considerado uma patologia?

Freud considerava o fetichismo como um desvio da normalidade até ao limite da perversão (atualmente denominada como parafília) e do foro patológico.


No entanto, a psicologia atual considera que todas as pessoas possuem um determinado grau de fetichismo dentro delas, ou seja, é normal um indivíduo sentir uma atracão por uma característica física de outra pessoa, (ex. seios grandes, as nádegas, os pés, etc), ou por adereços (ex. um tipo específico de roupa: pele, seda, borracha, cabedal, lingerie, saltos altos, ou outro tipo de roupa erótica), sendo “aceitável” que a pessoa use esses aspectos para aumentar a excitação ou prazer sexual.

O que deixa de ser um comportamento normal é a pessoa não conseguir obter prazer sexual sem o uso do fetiche e que esses objetos (ou fixações) sejam mais importantes que a outra pessoa, ou que substituam a cópula.



Podem considerar-se como parafilia – padrão de comportamento sexual em que há um desvio do acto sexual para um objecto ou situações consideradas exteriores ou menos comuns – os casos em que o fetichismo substitui o ato sexual em si e que a fonte de prazer sexual é desviada para fora do ato sexual normal.

Após Freud ter considerado o fetichismo um desvio sexual pervertido, o termo reaparece nos escritos de um conhecido psicólogo francês do séc. XIX: Alfred Binet, como um comportamento sexual atípico.

É apenas na segunda edição da DSM - “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-II, 1968 )” que o fetichismo ganha a sua conotação patológica. O fetichismo aparece como subcategoria dos “desvios sexuais” e sem uma definição concreta.

  
Esta é uma questão delicada, uma vez que as considerações respeitantes aos comportamentos considerados parafílicos dependem, num grau elevado, das convenções sociais em prática no momento. 
Recordemos que, em tempos, certas práticas como a homossexualidade, o sexo oral, o sexo anal e até mesmo a masturbação foram consideradas patológicas (parafílicas).

Charles Allen Moser, médico americano de medicina interna com especialização em medicina sexual, lançou vários artigos com discussões sobre as parafilias, o uso do viagra pelas mulheres, o fetiche por pés, o sadomasoquismo, o orgasmo, entre outros. No seu livro – Paraphilia: a critique of a confused concept - Charles apenas considerou como doenças mentais parafilicas a pedofilia, a hebefilia (preferência por indivíduos de idade púbere: 11 aos 14 anos), o sadismo, a autogynephilia (excitação sexual do indivíduo masculino ao imaginar-se mulher) e a zoofilia.

Charles Allen Moser criticou os critérios da DSM e exigiu que as parafilias fossem removidas do manual, argumentando que “o diagnóstico dos comportamentos sexuais alternativos como doenças mentais tem sido usado para justificar a opressão das minorias sexuais e para atingir objectivos políticos. A revisão desta questão não é apenas uma necessidade a nível científico, mas sim uma necessidade de respeito pelos direitos humanos.”

 

Apesar de esta visão ter sido extremamente criticada pelos conservadores, este e muitos outros esforços, levaram a que a quarta e quinta edições da DSM afirmassem que a parafilia não pode ser diagnosticada como uma doença do foro psiquiátrico a não ser que seja fonte de stress para o indivíduo ou prejudiue terceiros.

Assim, ficou aceite a distinção entre o indivíduo saudável que tem um comportamento sexual incomum e o indivíduo que sofre de uma patologia mental que origina um comportamento sexual incomum.


Tratamento

Embora se considere atualmente que os fetiches podem ser manifestações de carácter não patológico, o objecto-fetiche pode tomar uma dimensão extrema e influenciar a vida dos indivíduos que o adoram, determinando algumas das suas ações e tornando-se numa patologia.

Nestes casos, de acordo com diversas investigações, existem 4 tipos de tratamentos:


1. Terapia cognitivo-comportamental
2. Outras
3. Medicação
4. Psicanálise

 





Parafilias mais comuns


Sadismo Sexual

A excitação e prazer são obtidos com o sofrimento psicológico ou físico da vítima, incluindo humilhação;

Masoquismo

O prazer é obtido com a dor ou a sensação de dor;

Exibicionismo

Desejo incontrolável de exibição dos órgãos genitais a outros;

Voyeurismo
Obtenção do prazer sexual com base na observação de outras pessoas, que podem estar nuas, em roupa interior, ou outras roupas apelativas, ou a praticar relações sexuais.



O Fetichismo à luz da MTC

Tal como anteriormente referido, Fetichismo não é considerado patologia mas pode ser considerado patológico quando entra no campo da obsessão ou mania, em que o fetichista não consegue prescindir do objeto ou parte do corpo do outro para obter prazer sexual.

Pode ser também patológico quando o objeto em uso danifica de alguma forma o corpo do indivíduo.

A MTC, por ser uma medicina holística, vê o individuo não só de uma perspetiva física mas também emocional, mental e energética.

Sendo assim, do ponto de vista da MTC qualquer emoção tem um impacto no corpo energético e propicia a pessoa a desequilíbrios energéticos que tocam órgãos em especifico e com o passar do tempo trazem à tona sintomas associados e posteriormente patologias (energéticas, físicas ou psicológicas). 

A partir do momento que o fetiche causa algum tipo de desconforto no individuo, caminha para a enfermidade.

À luz da MTC pode enquadrar-se este tipo de comportamento desviado ou fora do normal – obsessão – no padrão de doenças mentais e emocionais, em que ocorre uma obstrução do Shen.

 

Por outro lado a MTC relaciona o acto sexual com a mente (Shen).

Existe uma relação Coração (Shen/Mente) à Rim (Jing/Essência) e de acordo com a Ginecologia na MTC, o ‘útero’ é quem faz esta ligação e está diretamente ligado ao cérebro (pineal, hipófise, hipotálamo) através do Coração (Shen/Mente).

Neste caso, o ‘útero’ é comum tanto para o Homem, denominado BAO (“Habitação do Esperma”), como para a Mulher, denominado de ZI BAO (“Bolsa da Criança”).


No caso da Mulher, este armazena o Sangue, responsável pela fisiologia da Menstruação e trata-se de uma estrutura física. 

No caso do Homem, o esperma é fabricado nos testículos e a estrutura não é física.

 

O ‘útero’ faz a ligação ao Coração através de um canal chamado BAO MAI (Canal do Útero) e faz a ligação ao Rim através de um canal chamado de BAO LUO (Meridiano do Útero), intervindo assim na regulação do Eixo Shao Yin (Coração – Rim), criando um arco triangular no qual favorece o contacto entre estes dois órgãos.

 

O Útero tem um papel de regulação emocional durante toda a vida da Mulher, ele estimula o Qi Mental afeto às emoções e controla os excessos. O Útero está longe de se limitar à função de reprodução, pois é também a matriz das emoções. Partindo deste princípio, problemas sexuais podem desencadear problemas mentais e vice-versa.

 

Ao longo da realização deste trabalho, procurou perceber-se de que forma o uso de fetiche de uma forma sistemática – fetichismo -  pode ser uma patologia ou  pode proporcionar o enriquecimento e a realização sexual, e como tal, uma parte importante na vida e saúde de um indivíduo.


Foram identificados três tipos de comportamentos relativamente ao uso de fetiches:

 

1 – Aqueles em que para quem o uso de fetiches, fantasias, ou outros “ingredientes” do género, proporciona uma relação sexual tornando-se mais estimulante e enriquecida;

2 – Aqueles em que a ausência de estímulo sexual pode ocorrer, porque o indivíduo, neste caso o fetichista, está desprovido do “seu fetiche”, ou da sua fantasia, e aí revela dependência do mesmo para conseguir obter excitação sexual;

3 – A relação sexual ou o acto sexual ocorre, mas sem o uso de quaisquer adereços, objectos ou fantasias, porque as pessoas envolvidas não sentem necessidade e não procuram aumentar a optimização ou maximização sexual.


O segundo tipo parece ser aquele que é o verdadeiramente patológico, mas também aquele que é menos frequente, sendo raro as pessoas que admitem este distúrbio mental, tornando muito difícil o seu tratamento.

 

Embora o tipo três não aparente indiciar qualquer aspecto patológico, pois o acto sexual parece decorrer sem problemas, se a relação se prolongar, é nossa opinião que poderá haver uma tendência para o empobrecimento da relação, dado a importância da presença constante de uma dose de criatividade e imaginação, em qualquer relação, que vá além do corpo do parceiro e das diversas posições que o acto sexual pode tomar.

É muito importante enriquecer uma relação, e maximizar todos os aspectos: físico, emocional, mental e espiritual.

A “pobreza” na criatividade e imaginação, poderá gerar um Shen vazio, podendo enfraquecer o Qi e consequentemente o Jing, e a energia Vital.




O uso de fetiches, se moderado e não gerar dependência, se não prejudicar nem ofender o parceiro ou outras pessoas envolvidas, é saudável e recomenda-se.

O fogo do Ming Men (a energia vital) deve manter-se activo e dinamizar as restantes funções do organismo, manter activa  e em bom estado, a mente (Shen).


Artigo realizado por Sara Finotecom base no trabalho da disciplina 'Ginecologia e Andrologia' da ESMTC de Maria do Carmo Wengorovius, Sara Venda e Joana Rodrigues.


Comportamentos parafílicos e seus registos históricos

Necrofilia
A necrofilia é um tipo de parafilia em que o indivíduo se sente sexualmente excitado com cadáveres podendo mesmo chegar a ter relações sexuais com os mesmos. A psicologia considera que por detrás deste comportamento bizarro está uma necessidade inconsciente de ter relações com um parceiro que não ofereça qualquer resistência ou faça qualquer tipo de julgamento e que, assim, permita ao indivíduo praticar livremente e dominar por completo o acto sexual.
Há registos desta parafilia em escritos da Grécia antiga; Herodotus, historiador grego que viveu no séc. XV AC, deixou documentado que os egípcios deixavam os cadáveres apodrecerem durante 4 dias antes da mumificação de forma a evitar as relações sexuais com as múmias.

Zoofilia
A zoofilia é o nome dado à prática sexual com animais em que o indivíduo não faz distinção entre a excitação sexual provocada por um animal ou por um ser humano.
Mais uma vez, é possível ler nos escritos de Herodotus registos desta prática na cultura egípcia. Herodotus escreveu que os egípcios dominavam a prática do acto sexual com crocodilos.
Os romanos ficaram marcados na história como um povo libertino com uma busca intensa e constante pelo prazer sexual. A zoofilia era uma prática regular dos romanos com uma variedade imensa de animais e há referências de que a mulher romana se masturbava com cobras “domesticadas”.

Sadomasoquismo
O termo para descrever a parafilia que envolve os actos sexuais em que os intervenientes interpretam personagens dominantes e submissas e cujo objectivo é obter prazer sexual através da dor e da humilhação deve o seu nome a Marquês de Sade.
Embora Marquês de Sade tenha dado origem ao nome, não foi ele o inventor da prática.
A imagem em baixo está presente na Marquis de Sade (1740-1814), um escritor francês conhecido pelas suas obras eróticas que exploravam o alcançar da excitação sexual e do prazer através da dor e da crueldade.
No sadomasoquismo, o parceiro dominante deve causar dor física ao parceiro submisso com prévio consentimento.
O nível de dor física é definido pelo parceiro submisso assim como o grau de humilhação pelo qual vai passar.

Asfixia autoerótica

Este é o termo técnico para a prática que consiste na indução de um estado de asfixia cerebral por um indivíduo durante a masturbação.
Trata-se de uma preferência por estímulos sexuais pouco usuais que engloba um elevado número de riscos podendo mesmo levar à morte.
O psiquiatra e antigo diretor do serviço de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos, Afonso de Albuquerque, afirma que cinco a dez pessoas morrem anualmente em Portugal por falta de sangue no cérebro durante esta prática.

Este estado é conseguido através da constrição do pescoço por um cinto, ou um laço, ou por suspensão (por exemplo, de uma árvore).
O fluxo sanguíneo cerebral é restringido parcialmente, resultando em falta de oxigénio, o que diminui a inibição cortical normal, resultando num orgasmo mais intenso, mas também num risco de morte acidental, se o praticante desmaiar antes de poder alargar a constrição do laço.
No séc. XVI, a asfixia autoerótica era usada como tratamento para a disfunção eréctil. Esta prática foi desenvolvida após se te observado que as vítimas masculinas dos enforcamentos públicos, ao morrer, tinham ereções.

Podofilia

Trata-se de uma parafilia em que o indivíduo se sente atraído e sexualmente excitado por uma parte do corpo não-sexual: os pés.
Os primeiros registos desta parafilia datam de 1220 D.C.


Alguns historiadores afirmam que este fetiche surgiu pelo medo da contracção das DST’s (há mais registos históricos de Podofilia durante os séc. XVI e XIX durante as epidemias de sífilis).