A REPRODUÇÃO ASSISTIDA (Fertilização in Vitro) e o apoio da Medicina Tradicional Chinesa

A reprodução é uma função biológica que permite a propagação da espécie. Apesar de ser algo natural, por vezes o Ser Humano depara-se com dificuldades neste campo.



A infertilidade constitui um problema cada vez mais frequente na população.
A infertilidade é o resultado de uma falência orgânica devido à disfunção dos orgãos reprodutores, dos gãmetas ou do embrião.

Considera-se que um casal é infértil quando não consegue a gravidez desejada ao fim de um ano de relações sexuais sem métodos contraceptivos.
A infertilidade pode ser feminina, masculina, ambas ou sem causa aparente.


A prevalência da infertilidade conjugal é de 15-20% na população em idade reprodutiva e a taxa de infertilidade masculina é similar à taxa de infertilidade feminina.
Em média, 80% dos casos apresentam infertilidade nos dois membros do casal, sendo, geralmente, um mais grave do que o outro.

A infertilidade tem aumentado nos países industrializados devido ao adiamento da idade de concepção, aos hábitos sedentários e de consumo excessivo de gorduras, tabaco, álcool e drogas, bem como aos químicos utilizados nos produtos alimentares e aos libertados na atmosfera.

Na mulher as principais causas de infertilidade são:
- factores ovarianos
- factores tubários
- factores cervicais
- factores auto imunes
- factores constitucionais

D acordo com a Medicina Tradicional Chinesa as causas da infertilidade podem ser:

Padrões de Deficiência


Vazio de yin do rim e de sangue do fígado
Vazio de qi e de yang do baço e rim

Padrões de Excesso:
Frio
Calor
Fleuma e/ou humidade
Estagnação de qi
Estase de sangue.

Geralmente os padrões de deficiência podem ser associados a problemas na ovulação, descamação do endométrio, baixos níveis de estrogénio e/ou progesterona e níveis aumentados de FSH.

Os padrões de excesso estão mais relacionados com factores de bloqueio das trompas, fibromas e/ou miomas uterinos, ovários poliquísticos, endometriose, factores de adesão, stress e infecções do aparelho ginecológico.


No homem os factores mais comuns que podem causar infertilidade
- Factores testiculares
- factores sexuais
- Factores relacionados com a autoimunidade

No homem, a infertilidade de acordo com a Medicina Tradicional Chinesa pode ser devido a:

Padrões de Deficiência
Vazio de yin do rim e de sangue do fígado
Vazio de qi e de yang do baço e rim

Padrões de Excesso
Estagnação de qi e estase de sangue
Humidade calor

Geralmente os padrões de deficiência podem ser associados a falhas na ejaculação, factores auto imunes, testículos pequenos, baixo volume de esperma, baixa contagem de espermatozóides, mobilidade deficiente dos espermatozóides ou baixos níveis de testosterona.

Os padrões de excesso estão normalmente relacionados com alterações na morfologia dos espermatozóides, varicocele, bloqueio dos ductos ejaculatórios e infecções.



A Reprodução Assistida
Existem várias técnicas de reprodução assistida das quais a mais conhecida e divulgada é a Fertilização in vitro.

Inseminação intrauterina ou artificial
Consiste no depósito de espermatozóides dentro do útero. É uma técnica simples, rápida (3 a 5 minutos) e praticamente indolor. Não necessita de anestesia e os espermatozóides são depositados através de um cateter que passa o colo do útero.

Existe ainda outra modalidade que consiste na introdução dos espermatozóides no cérvix (inseminação intra-cervical).
Este método está indicado nos casos de esterilidade de causa masculina ou quando o muco da paciente não permite que os espermatozóides alcancem o útero e também nos casos de esterilidade sem causa aparente.

O período mais eficaz da ovulação é controlado mediante o uso de medicamentos para aumentar as possibilidades de sucesso.
No dia da inseminação é colhida uma amostra de sémen (com 3 a 5 dias de abstinência sexual).
Os espermatozóides são separados no laboratório após o qual se procede à inseminação propriamente dita.

A fertilização, neste caso, é in vivo, dentro das trompas de Falópio.
A percentagem de sucesso é de cerca de 20% por ciclo de tratamento, semelhante à possibilidade mensal de gestação num casal sem nenhum problema de infertilidade, podendo ser necessários mais do que um ciclo para conseguir resultados positivos. Fatores como a idade da mulher e a existência de outros problemas podem influenciar no êxito do tratamento.


Fertilização in vitro (FIV)
A fertilização in vitro é uma técnica utilizada desde 1978, quando se mostrou bem sucedida após o nascimento de Louise Brown na Inglaterra, o primeiro bebé proveta.

A fertilização in vitro tradicional é um procedimento onde os óvulos são retirados da mulher, após estimulação ovárica e colocados juntamente com os espermatozóides do parceiro, num disco de Petri, para fecundar. Após a fecundação, os embriões assim formados são mantidos em uma estufa, até que cheguem ao número ideal de células para que possam ser colocados então dentro do útero da paciente. Geralmente um ou dois embriões são transferidos para o útero e os restantes são congelados para implantação em futuros ciclos.

Esta técnica está indicada em casos de obstrução das trompas, factores cervicais anormais, endometriose moderada ou severa,  número de espermatozóides baixo, factores imunológicos, infertilidade sem causa aparente, infertilidade após cirurgia tubárica ou após tratamentos de endometriose.
Poderá também ser utilizada em casos de mulheres que não estão a conseguir engravidar após o uso de técnicas mais simples de reprodução.

O detalhe dos passos que compreendem este método será abordado mais adiante.


As etapas para a FIV

Regulação hormonal
Esta etapa ocorre antes de se começar o ciclo da FIV. Aqui são dados agonistas ou antagonistas das hormonas de libertação das Gonadotrofinas (GnRH) (como por exemplo luprorelina e Cetrorelix) a fim de prevenir a acção da pituitária de interferir com o efeito dos fármacos que irão estimular a ovulação.

Estimulação da ovulação
Assim que a menstruação ocorre e os testes sanguíneos mostram que os níveis hormonais estão todos suficientemente baixos, são então administrados por via injectável diariamente fármacos para estimular os folículos ovarianos a crescer - preparações à base de FSH (Gonal-F) ou FSH com LH (Pergonal).
A aspirina também pode ser acrescentada para aumentar a circulação nos ovários e no útero.

Monitorização da fase folicular
O progresso desta etapa é monitorado através de testes sanguíneos que verificam os níveis de estrogénio produzidos pelos folículos em crescimento e por testes de ultrasom que medem o tamanho dos mesmos.
Durante a fase final do desenvolvimento dos folículos e maturação dos óvulos é administrada uma injecção de gonadotrofina coriónica humana (Pregnyl). Este procedimento ocorre cerca de 34-36 horas antes da recolha dos óvulos, precisamente antes da ovulação ocorrer e ajuda a que os óvulos imaturos se tornem maduros ou no estadio de metafase II (oócito).

Recuperação de oócitos
No passado era empregue a técnica da laparoscopia para a aspiração dos oócitos. Hoje em dia o método mais utilizado é a aspiração transvaginal em que uma agulha fina e longa conectada a uma bomba de sucção é introduzida na vagina até ao ovário esvaziando os folículos e permitindo a recolha de fluido dos mesmos.
Nem todos os óvulos recolhidos por este processo irão maturar ou ser fertilizados. O número de óvulos recolhidos também depende da idade da mulher e de outros factores desconhecidos. Do mesmo modo, nem todos os óvulos fertilizados continuarão o processo de divisão celular.

Componente laboratorial
Depois de recolhidos os oócitos o fluido é observado microscopicamente por um embriologista a fim de identificar e isolar os complexos dos óvulos que depois irão ser colocados num meio propício à sua maturação, primeiro num disco de Petri e depois num incubador por cerca de 3 a 6 horas antes de serem expostos ao contacto com o esperma.


Para o esperma, várias formas de preparação poderão ser usadas, desde simples lavagem e centrifugação até a técnicas mais complicadas que separam apenas a componente do esperma com mobilidade para a fertilização. Para levar a cabo esta são necessários cerca de 50 000 a 500 000 unidades de esperma movél por mililitro.

Crescimento do embrião num meio de cultura
Uma vez que o oóccito tenha sido fertilizado pelo esperma ele é observado cerca de 15-18 horas depois e transferido do meio de incubação para um meio de crescimento com cerca do dobro da quantidade de proteína. Seguidamente o embrião é transferido de novo para o meio de incubação e aí permanecerá até ser implantado no útero, normalmente cerca de 48-72horas.
O ovo fertilizado necessita de estar pelo menos no estágio 4-8 de divisão celular até ser inseminado no útero.

Transferência do embrião
Nesta fase os embriões seleccionados para implantação no útero são colocados num cateter de plástico fino usando um pequeno volume de meio e este cateter é introduzido na vagina, passando o cérvix e entrando na cavidade uterina, onde é descarregado. Geralmente cerca de 2-3 embriões são transferidos no primeiro ciclo de tratamento em mulheres na idade dos 35 anos e cerca de 3-4 nas mulheres entre os 35-40 anos, de modo a maximizar as hipóteses de sucesso minimizando os riscos de gravidez múltipla.
Os restantes embriões que não são transferidos podem ser congelados em nitrogénio líquido e serem usados mais tarde se a implantação ou gravidez não ocorrer.
De notar que o número de embriões transferidos depende muito de diversos factores como a normas de procedimento das diferentes clínicas, hospitais ou centros que praticam FIV e ainda da decisão dos próprios pais, uma vez que não se pode excluir a hipótese de ocorrer gravidez múltipla.

Monitorização da fase lútea
Depois da ovulação há que manter o corpo lúteo a produzir progesterona. Para isso, são administradas injecções de gonadotrofina coriónica humana para estimular a produção de progesterona ou mesmo suplementos desta hormona são administrados sob a forma de injecções, comprimidos ou supositórios.
A ultrasonografia também pode ser usada para medir o tamanho dos ovários, particularmente se se suspeitar de hiperestimulação. O sucesso desta fase depende muito do estado da parede uterina e da força do próprio embrião.
Um teste de gravidez é usualmente realizado cerca de 12-14 dias após a recuperação dos oócitos. Se os resultados forem positivos, os níveis de progesterona serão monitorizados e o teste de gravidez é repetido de forma a medir a taxa da gonadotrofina coriónica humana, presente nos primeiros estadios da gravidez.


O papel da MTC nas várias fases do processo da FIV

1 - Período prévio à FIV

Aproximadamente 3 meses antes dos intervenientes se submeterem à FIV é desejável realizarem tratamentos de acupunctura e fitoterapia a fim de que o sucesso da técnica seja maior. A MTC funcionaria como um complemento bastante útil nas várias fases do processo.




Para a mulher:

Melhoria da função ovárica e da irrigação uterina:
Desenvolvimento de óvulos mais fortes e resistentes bem como de embriões saudáveis.
Pesquisas demonstram que a acupunctura pode melhorar a circulação de sangue no útero, desta maneira promovendo o crescimento folicular e a implantação do embrião.
Altos níveis de FSH indicam uma função ovárica deficiente. A MTC pode ajudar regulando os níveis hormonais e diminuindo os níveis da FSH.

Fortalecimento do sistema imunitário e redução do stress:
Cerca de metade das gravidezes induzidas resultam em aborto espontâneo.
Um sistema imunitário forte pode evitar esta ocorrência e a acupunctura e a fitoterapia podem ter aqui um papel primordial.
Muitos pacientes a utilizar a FIV experimentam efeitos secundários e níveis elevados de stress associados à ansiedade que todo este processo acarreta.
A MTC pode ajudar as mulheres a ficarem mais calmas evitando ou reduzindo as contracções uterinas que podem desencadear o aborto.

Dieta e estilo de vida:
Na MTC estes dois componentes são vistos como fundamentais na melhoria e manutenção da saúde.
As sugestões dietéticas podem incluir a redução de bebidas frias e comida crua, bem como limitar a ingestão de gelados, chocolate ou café.
Será desejável por exemplo dar preferência a sopas de galinha, feijões e vegetais que ajudem a nutrir o útero. Fazer refeições regulares também é outra regra importante.

O exercício é outro componente muito importante que ajuda a aliviar o stress e a manter o corpo saudável, desta forma aumentando as hipóteses de alcançar uma gravidez.
Alguns exercícios recomendados pela MTC são o Tai Chi, Gigong e as práticas de meditação.


No caso do Homem, o período de preparação prévia para a FIV também é muito importante para:

Aumentar a quantidade de esperma, bem como melhorar a sua qualidade, deste modo assegurando a produção de embriões mais viáveis e saudáveis e uma implantação mais efectiva.


Os protocolos de acupunctura que se utilizam nesta fase prévia quer na mulher quer no homem dependem, obviamente, do quadro clínico de cada paciente.

A acupunctura, estando inserida na MTC, vê o Ser Humano como um todo, de uma forma holística e os protocolos não podem ser uniformizados mas sim adaptados a cada caso.
Podemos, no entanto, destacar alguns pontos que, pela sua função, podem ser com mais segurança e efectividade utilizados.

Para as mulheres os pontos recomendados são;
36E (zu san li) – rectifica a digestão e suporta o qi defensivo
6BP (san yin jiao) – ponto de reunião dos 3 meridianos yin da perna - fígado, baço e rim, nutre o sangue;
3F (tai chong) – move o qi do fígado, e em conjunto com o 4IG, abre os 4 portões;
4IG (he gu) – usado conjuntamente com o 3F, abre os 4 portões; 8BP (di ji) – regula as hormonas;
yintang – acalma a mente.

Poderão ainda ser usados pontos para tonificar o rim, fonte do Jing, yin e yang de todo o corpo, com os pontos:
4VG (mingmen)– revigora o yang, sobretudo do rim;
3R (tai xi) – é o ponto fonte do rim, tonifica o qi do rim (o yin e o yang do rim);
7R (fu liu) – é o ponto de tonificação do rim, tonifica o yang do rim.

Para os homens podem utilizar-se os pontos:
6VC (qi hai) e 4VC (guan yuan) – promovem a circulação de qi e sangue nos testículos;
20VG (bai hui) – estimula a pituitária tendo um papel na regulação hormonal.
Poderão ser também utilizados os pontos de assentimento (shu) nas costas correspondentes aos órgãos. Por exemplo:
15Bx (xin shu) – ponto shu do coração;
17Bx (ge shu) – ponto shu do diafragma, nutre o sangue;
18Bx (gan shu) – ponto shu do fígado;
20Bx (pi shu) – ponto shu do baço;
23Bx (shen shu) – ponto shu do rim;
Para reforçar o rim poderão ser ainda utilizados os pontos:
4VG (mingmen)– revigora o yang sobretudo do rim;
6R (zhao hai) – tonifica o yin do rim;
3R (tai xi) – é o ponto fonte do rim, tonifica o qi do rim.


2 - Período durante a FIV

Este é o período mais importante em que ambas as medicinas ocidental e chinesa podem actuar em conjunto contribuindo para níveis de sucesso mais elevados.

Regulação hormonal
Como já foi atrás descrito, esta fase que dura sensivelmente um mês, antecede o ciclo da FIV e tem como objectivo permitir o descanso do ovários a fim de posteriormente estes se tornarem mais responsivos ao tratamento hormonal.







Em termos de MTC poderá ser utilizada a acupunctura e a fitoterapia com o objectivo de:
Rectificar e mobilizar o qi do fígado;
Estimular a circulação sanguínea e fortificar o baço;
Acalmar e relaxar a mente.

Assim os pontos utilizados e a fórmula utilizada poderão ser:
Huo jing zhong zi fang
36E (zu san li),
6BP (san yin jiao),
3F (tai chong),
4IG (he gu), yintang,
10BP (xue hai),
zi gong xue (ponto extra).

Estimulação dos ovários
Tal como já foi atrás explicado nesta fase crucial os ovários são estimulados a produzir folículos mimetizando o papel das hormonas FSH e LH.

A MTC pode contribuir neste período melhorando a quantidade e qualidade dos óvulos produzidos durante o crescimento folicular.
Deste modo ela pode actuar:
Suplementando os rins e fortalecendo o Baço;
Nutrindo o sangue e acalmando a mente;
Diminuindo os efeitos secundários das medicações de indução hormonal.

Assim os pontos utilizados e a fórmula utilizada poderão ser:
Ding jing fang,
36E (zu san li),
6BP (san yin jiao),
3F (tai chong),
4IG (he gu), yintang,
3R (tai xi),
20VG (bai hui),
zi gong xue (ponto extra).


3 - Transferência do embrião 

Durante esta fase o embrião e/ou embriões são transferidos para a cavidade uterina.

A MTC pode ajudar facilitando a dilatação cervical e relaxando o útero. Desta forma durante o processo as contracções e possíveis cólicas da paciente são minimizadas, facilitando a implantação. A MTC pode actuar:
Suavizando o qi do fígado e nutrindo o sangue do coração de forma a acalmar a mente;
Fortificando o baço e tonificando o qi.




Assim os pontos utilizados e a fórmula utilizada poderão ser:
Huo jing zhong zi fang já referida anteriormente e que deverá ser tomada na noite que antecede a transferência do embrião e na manhã em que ocorreu a transferência;
36E (zu san li),
6BP (san yin jiao),
3F (tai chong),
4IG (he gu),
yintang,
3R (tai xi),
20VG (bai hui),
13R (qi xue),
si shen cong (ponto extra);
Pontos auriculares como shenmen, rim, fígado e baço.

O ponto 13R tem aqui a função de promover a abertura cervical para facilitar a transferência do embrião, bem como de aumentar o fluxo de sangue no útero de forma a promover o espessamento do endométrio.
O si shen cong é utilizado para segurar o embrião e acalmar a mente.
O ponto shenmen também tem esta função.
O ponto auricular correspondente ao rim nutre a essência e aumenta os níveis hormonais, o fígado e o baço suavizam o qi e nutrem o sangue.


3 - Monitorização da fase lútea

Esta fase que ocorre depois da transferência dos embriões vai depender de diversos factores tal como o estado da parede uterina e a força do próprio embrião.

A MTC pode ter aqui um papel fundamental, melhorando a irrigação do útero, contribuindo assim para a nidação e promovendo o desenvolvimento e crescimento do embrião.
O relaxamento do útero é também extremamente importante para prevenir as contracções uterinas que poderão causar hemorragias e possível aborto.

Nesta fase é sobretudo importante reforçar o rim, base da essência.




Consoante seja mais preponderante uma situação de vazio de yang ou de vazio de yin do rim assim podemos utilizar:
Para o vazio de yang a fórmula An Tai Fang. Esta fórmula permite:

Nutrir a essência;
Espessar as paredes do útero e nutrir o embrião;
Suplementar e fortalecer o yang do rim;
Nutrir o sangue do fígado e o yin do rim;
Nutrir o yin do fígado e rim e segurar a essência;
Suplementar o qi e o sangue;
Fortificar o baço e acalmar a mente.

Para o vazio de yin a fórmula Yang Tai Fang. Esta fórmula permite:

Nutrir a essência;
Nutrir e fortalecer o yin do rim e o sangue;
Nutrir o yin do fígado e rim e segurar a essência;
Fortalecer o baço e os rins e promover os líquidos orgânicos;
Relaxar os músculos das paredes uterinas prevenindo as indesejáveis contracções;
Nutrir o yin do coração e acalmar a mente.

Os pontos de acupunctura utilizados em ambos os casos poderão ser:
36E (zu san li),
3R (tai xi), yintang,
20VG (bai hui)
Pontos auriculares – shenmen, rim, a meio da zona entre o fígado e baço.

O 36E e o 3R só deverão ser utlizados numa fase inicial logo após a transferência do embrião. Depois de um teste de gravidez positivo estes pontos deverão ser omitidos uma vez que podem hiperestimular a zona pélvica.


4 - Período após a FIV – prevenção do aborto

Depois de todas as fases da FIV terem decorrido bem é ainda necessário consolidar a gravidez, prevenindo o aborto.
Cerca de 50% das pacientes com idades perto dos 40 anos e que incorrem na FIV experimentam aborto. No entanto, com o suporte da MTC estas taxas podem ser consideravelmente reduzidas possibilitando da gravidez chegar ao seu termo.

Um ponto importante a ter em conta é evitar utilizar pontos que possam mover fortemente o qi e o sangue.

Alguns pontos de acupunctura que poderão ser utilizados são: 
20VG (bai hui) para elevar o qi de forma a segurar o embrião;
Si shen cong (ponto extra) para acalmar a mente e prevenir as contracções uterinas;
Yintang (ponto extra) para acalmar a mente;
Pontos auriculares:
shenmen, rim, a meio da zona entre o fígado e baço (para reforçar a produção de sangue para nutrir o embrião).

Poderão ainda ser utilizados pontos adicionais em casos de :
Náuseas e vómitos:
8VC (shen que) com moxa;
12VC (zhong wan);
25E (tianshu);
Hemorragias:
20VG (bai hui) com moxa;
1BP (yin bai);
1F (da dun);
36E (zu san
li);
Dores nas costas:
15Bx (xin shu);
17Bx (ge shu);
18Bx (gan shu);
20Bx (pi shu);
23Bx (shen shu).

A fitoterapia que se poderá utilizar nestes casos tem como objectivo suplementar os rins em todos os casos de ameaça de aborto.
Poderão ser utilizadas duas fórmulas para reforçar os rins consoante se trate de uma situação de vazio de yin ou de yang dos rins.
Assim poderá utilizar-se para cada caso as fórmulas já referidas anteriormente, Yang Tai Fang ou An Tai Fang.




Estudos de Investigação Clínica recentes relacionando a acupunctura e a FIV

A combinação das técnicas de FIV com a acupunctura tem sido alvo de vários estudos demonstrando o efeito benéfico desta associação.

Foi feito recentemente, já no princípio deste ano um estudo de revisão e uma metaanálise com o título “Effects of acupuncture on pregnancy rates in women undergoing in vitro fertilization: a systematic review and meta-analysis.” Este estudo foi publicado pelos autores Zheng CH, Huang GY, Zhang MM e Wang W e realizado no Institute of Integrated Traditional Chinese and Western Medicine, Tongji Hospital, Tongji Medical College, Huazhong University of Science and Technology, Wuhan, Hubei, People's Republic of China.

Foram analisadas cerca de 5000 mulheres a realizar FIV e que receberam simultaneamente acupunctura em ensaios clínicos randomizados. As conclusões foram as de que a acupunctura melhorou as taxas de gravidez e as taxas de nascimento conseguidas através da FIV.

Um outro estudo realizado em 2006 na Alemanha teve como objectivo determinar os efeitos da acupunctura durante a fase lútea em pacientes submetidas a FIV e ICSI.
O estudo, publicado pelos autores Dieterle S, Ying G, Hartmann W, Neuer A do Division of Reproductive Endocrinology and Infertility, Department of Obstetrics and Gynecology, University of Witten/Herdecke, Dortmund, Germany de título Effect of acupuncture on the outcome of in vitro fertilization and intracytoplasmic sperm injection: a randomized, prospective, controlled clinical study.
Participaram no estudo 225 mulheres inférteis submetidas a FIV e ICSI em que um grupo recebeu tratamento de acupunctura e o outro não. O resultado foi que o grupo que recebeu acupunctura apresentou uma taxa de gravidez de 33,6% contra 15,6% do grupo placebo podendo-se concluir que a acupunctura teve um efeito positivo durante a fase lútea das pacientes que se submeteram à FIV.

Um outro estudo realizado em 2005 pelos autores Pei J, Strehler E, Noss U, Abt M, Piomboni P, Baccetti B, Sterzik K pretendeu avaliar os efeitos da acupunctura na morfologia dos espermatozóides em homens com infertilidade de origem idiopática.
Este estudo foi publicado no Longhua Hospital, Shanghai University of Traditional Chinese Medicine, Shanghai, People's Republic of China e tinha por título Quantitative evaluation of spermatozoa ultrastructure after acupuncture treatment for idiopathic male infertility.”
Participaram 40 homens em que um dos grupos recebeu acupunctura e o outro não. Foi analisado o sémen de cada um dos grupos e a conclusão a que se chegou foi a de que a acupunctura contribuiu significativamente         para  a       melhoria da   quantidade   e     qualidade dos espermatozóides.

Um outro estudo de revisão realizado em 2011 no Department of Traditional Chinese Medicine and Acupuncture, Peking University Third Hospital, Beijing 100191, China com o título “Exploring the effects of Chinese medicine in improving uterine endometrial blood flow for increasing the successful rate of in vitro fertilization and embryo transfer” mostra o papel importante da MTC como terapêutica adjuvante para a FIV.
Os autores deste estudo, Guo J, Wang LN, Li D salientam o papel da MTC na melhoria da circulação sanguínea no endométrio e na transferência do embriões.
Eles apontam para o facto de que existem estudos que comprovam que fórmulas que reforçam o rim e activam o sangue podem promover a activação dos vasos sanguíneos no endométrio.
O tratamento baseado na diferenciação de síndromes é também muito importante em conjunto com o diagnóstico médico. Em determinados casos pode ser importante também suavizar o qi do fígado e nutrir, bem como tonificar o baço.



A acupunctura tem sido usada durante a FIV e na fase de transferência embrionária desde há pelo menos 10 anos. A electroacupunctura pode controlar a expansão das artérias uterinas através da inibição dos nervos simpáticos contribuindo assim para mais altas taxas de sucesso de implantação.

Deste modo a MTC e a medicina ocidental podem actuar em conjunto para melhorar a circulação sanguínea no endométrio e aumentar as taxas de natalidade através da FIV contribuindo assim para o sucesso terapêutico.

Um número cada vez maior de pessoas está a utilizar as técnicas de reprodução assistidas combinadas com a MTC.
Antes de enveredar por esta via é importante antes de mais preparar o corpo e a mente de forma a alcançar um estado de saúde o mais pleno e saudável possível. A MTC pode ser uma ferramenta importante nesta fase para aumentar as hipóteses de engravidar. Ela reforça a ideia da necessidade do corpo estar suficientemente forte e equilibrado antes de se enveredar por métodos de reprodução assistida.

Quando tal não acontece estas técnicas poderão ser demasiado fortes e invasivas, desequilibrando ainda mais a frágil estrutura do corpo e conduzindo a fracos resultados. Como resultado a mulher poderá não responder à estimulação hormonal ou o sistema endócrino poderá ficar exausto conduzindo a uma menopausa prematura.

Por outro lado ainda que a desejada gravidez tenha sido conseguida é ainda necessário lidar com todo o desgaste e demanda energética que tal processo acarreta. É necessário a mulher e o homem estarem o melhor preparados possível antes de se encetar o processo de FIV e a MTC, pelo que já foi exposto anteriormente, pode ter aqui um papel complementar muito importante. Acima que tudo há que planear bem e escolher as opções mais adequadas a cada caso.

Por vezes, e apesar da FIV ser a técnica mais conhecida e utilizada de reprodução assistida, poderão ser utilizadas outras técnicas mais simples, menos invasivas e com menores efeitos secundários como a Inseminação Artificial por exemplo, antes de se partir logo para a FIV.

A combinação das modernas tecnologias de reprodução com o ancestral conhecimento da Medicina Tradicional Chinesa pode ser uma grande mais valia para os problemas de infertilidade que cada vez mais casais atravessam.
Penso que esta é uma área em desenvolvimento e expansão com cada vez mais pessoas sensibilizadas para a integração de várias terapias para um objectivo comum – alcançar um bem estar físico, mental, emocional e espiritual. A fertilidade é apenas um reflexo de tudo isso.


Bibliografia
- LYTTLETON, Jane – Treatment of Infertility with Chinese Medicine, Churchill Livingstone, Elsevier Ltd, 2004, pp. 361-376
- CAMPIGLIA, Helena – Domínio do Yin- Da Fertilidade à Maternidade: A Mulher e suas Fases na Medicina Tradicional Chinesa, Roca, São Paulo, 2010, pp. 41-44
- LIANG, Dr. Lifang – Acupuncture & IVF, Blue Poppy Press, Boulder Co, 2003, pp. 9- 72
- DAOSHING, Ni; HERKO, Dana – The Tao of Fertility – A Healing Chinese Medicine Program to Prepare Body, Mind, and Spirit for New Life, HarperCollins e-books, 2008, pp. 138-142
- KUSSLER, Ana Paula; COITINHO, Adriana Simon, “Técnicas de reprodução assistida no tratamento da infertilidade”, RBAC, Novo Hamburgo, RS, Brasil, 2008, Vol. 40 (4), pp.313-315
- ZHENG, CH; HUANG, GY;ZHANG, MM; WANG, W, “Effects of acupuncture on pregnancy rates in women undergoing in vitro fertilization: a systematic review and meta-analysis.” , Fertil Steril., Institute of Integrated Traditional Chinese and Western Medicine, Tongji Hospital, Tongji Medical College, Huazhong University of Science and Technology, Wuhan, Hubei, People's Republic of China, 2012 Mar;97(3):599-611. Epub 2012 Jan 11.
-GUO, J; WANG, LN; LI, D, “Exploring the effects of Chinese medicine in improving uterine endometrial blood flow for increasing the successful rate of in vitro fertilization and embryo transfer”, Zhong Xi Yi Jie He Xie Bao, Department of Traditional Chinese Medicine and Acupuncture, Peking University Third Hospital, Beijing 100191, China 2011 Dec;9(12):1301-6.
- Dieterle S, Ying G, Hartmann W, Neuer A, “Effect of acupuncture on the outcome of in vitro fertilization and intracytoplasmic sperm injection: a randomized, prospective, controlled clinical study.”, Fertil Steril, Division of Reproductive Endocrinology and Infertility, Department of Obstetrics and Gynecology, University of Witten/Herdecke, Dortmund, Germany. 2006 May;85(5):1347-51. Epub 2006 Apr 17.
- Pei J,Strehler E,Noss U, Abt M, Piomboni P, Baccetti B, Sterzik K, Quantitative evaluation of spermatozoa ultrastructure after acupuncture treatment for idiopathic male infertility., Fertil Steril, Longhua Hospital, Shanghai University of Traditional Chinese Medicine, Shanghai, People's Republic of China., 2005 Jul;84(1):141-7.
- http://www.apfertilidade.org/web/o-que-e-a-infertilidade - http://pt.wikipedia.org/wiki/Infertilidade - www.feliccita.com.br/Tecnicas.htm

Artigo editado por Joana Prata, baseado no trabalho de Patrícia Butzke para a disciplina de Ginecologia e Andrologia do 5º ano da ESMTC