O Uso da Canábis na Saúde Ginecológica e Obstétrica – História e Atualidade






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Durante grande parte da história, a tradição do uso de plantas medicinais pelas mulheres para fins ginecológicos e obstétricos, tem sido mantido em segredo.
Plantas para controlo de reprodução são conhecidas há milhares de anos mas este conhecimento foi esquecido no tempo ou totalmente perdido, como o caso do contracetivo usado na Grécia antiga, o sylphion.
Um dos exemplos deste conhecimento perdido, é o uso da canábis para fins medicinais, mas sabe-se que o seu papel como medicamento para tratamento de condições ginecológicas e obstétricas é muito antigo.


Mundo Antigo e Medieval / Médio e Extremo Oriente

As primeiras referências à canábis para utilização em condições médicas femininas têm provavelmente origem na Mesopotâmia Antiga. No século VII a.C., o rei assírio Assurbanipal reuniu uma biblioteca de manuscritos em grande escala, nesta, havia uma referência a comprimidos de “pedra médica” – azallû, em que sementes de cânhamo eram misturadas com outros agentes e usadas como tratamento de condições femininas não especificadas. O azallû era também usado para dificuldades durante o parto e para promover a menstruação, quando misturado com açafrão e menta.

O uso da canábis permanece na farmacopeia egípcia desde os tempos faraónicos. Era administrada por via oral, rectal, vaginal, na pele, nos olhos e por inalação. Nesta altura está descrito o uso da canábis para o auxílio durante o parto, era misturado com mel e introduzido na vagina para promover as contrações.

Na Pérsia, nos fragmentos que restaram do livro sagrado do Zoroastrismo - Zend-Avesta, datado de 600 a.C., há passagens que apontam claramente para os efeitos psicoativos do banga, que foi identificado como sementes de cânhamo. Estas passagens sugerem ainda a sua utilização para a promoção do aborto.

Em Israel/Palestina foi encontrado um tumulo contendo um esqueleto de uma menina de 14 anos, juntamente com moedas datadas do século IV. Através de análises foi revelada a presença de fitocanabinoides na zona abdominal do esqueleto, com a ajuda de outros achados conjuntos é possível presumir que estes tenham sido usados para ajuda obstétrica.

Na Síria a planta da cannabis era usada para tratar fissuras anais decorrentes do parto.

Na tradição ayurvédica e árabe as preparações contendo canábis eram indicadas como afrodisíacos e para tratar a dor. Na medicina popular indiana a cannabis foi usada a partir dos séculos IV-III a.C.

O uso de cannabis é citado no primeiro livro de matéria médica em árabe: Al-Aqrabadhin Al-Saghir. Era usada uma preparação em que sementes desta planta eram misturadas com uma variedade de outras plantas, obtendo-se um sumo de uso intranasal, usado para acalmar dores uterinas e prevenir o aborto.

Já no século XI o médico andaluz Wafid al-Lajmi indica que as propriedades secantes das sementes da canábis inibem a produção de leite materno. Outro médico, Tabit ibn Qurra, afirma que reduziriam a lubrificação genital feminina quando misturadas numa poção com lentilhas e vinagre.

No século XIII há indicações de diversos médicos persas para o uso de sementes e folhas desta planta para tratamentos de gases vaginais ou uso de óleo de sementes de cânhamo para endurecimento e contração do útero.

Mais próximo da nossa era, no século XVII, o sumo de folhas de canábis era usado para tratar a diarreia e gonorreia. Por esta altura mas no Azerbeijão medieval, o óleo das sementes desta planta era usado para o tratamento de tumores uterinos.

Na China, no livro Bencao Gang Mu, que foi compilado por Li Shih-Chen em 1596 e que reúne o conhecimento de diversas tradições antigas acerca de matéria médica, é recomendado o uso de flores de cannabis para diversos distúrbios menstruais, as sementes para dificuldades pós-parto e também o sumo da raiz para problemas de placenta retida e hemorragia pós-parto.





Medicina Europeia e Ocidental até aos nossos dias

As primeiras referências europeias ao uso de canábis na medicina feminina, derivam de fontes anglo-saxónicas: no século XI esta planta é recomendada para o peito dorido.
As referências encontradas em trabalhos posteriores referem também o uso de canábis misturada com uma pomada para ser esfregada os seios no intuito de reduzir o inchaço e a dor, ou o uso das sementes, ingeridas em grande quantidade para libertar leite materno e tratar dores devido a amenorreia.
O que se encontra em trabalhos dos séculos seguintes são indicações para o tratamento da gonorreia usando a raiz da planta, ou uma emulsão feita à base das sementes para tratamento de furor uterinus, ou seja ninfomania. Há ainda a indicação do uso da canábis para tratamento de obstrução menstrual crónica e para promover o aborto.

A partir de metade do século XIX, as propriedades desta planta foram sendo cada vez mais estudadas e o seu espectro de atividade foi rápidamente estendido a várias condições e com resultados surpreendentes. Foram verificados efeitos positivos em doentes com hemorragias uterinas excessivas. Em parturientes com dificuldade no parto, usando uma tintura chamada Indian Hemp, verificou-se que ao usar esta tintura aumentava a força das contrações uterinas durante o trabalho de parto e acelerava-o.
Foi observado também nesta época a eficácia desta planta no alívio dos vómitos durante a gravidez, menorragia e dismenorreia.

Nesta altura mas em França, foram verificados efeitos positivos nas afeções genito-urinárias, principalmente nos distúrbios menstruais como as hemorragias uterinas assim como nas hemorragias pós-parto.

Finalmente, outra indicação frequentemente citada era o uso da canábis para alívio dos sintomas decorrentes da menopausa, administrada por meio de supositórios que combinavam esta planta com extrato de belladona.

Há um relato especialmente interessante nesta época, que refere que Sir John Reynolds, médico da rainha Victoria, afirma ter-lhe prescrito doses mensais de cannabis para o alívio das dores menstruais durante toda a sua idade adulta.

Em 1934 o British Pharmaceutical Codex (Sociedade Farmaceutica da Grã-Bertanha) ainda mantinha uma indicação de cannabis para o tratamento da dismenorreia.

Atualmente, com o crescente interesse do uso da cannabis para fins medicinais, a investigação tem feito progressos consideráveis e hoje em dia cada vez mais países estão descriminalizar a sua plantação para fins medicinais (como Portugal), embora a sua produção continue a ser considerada crime na maior parte do mundo.

Foi a partir de estudos que tentavam descobrir os efeitos da canábis em humanos, no inicio da década de 90 do século XX, que foi descoberto o Sistema Endocanabinóide (ECS), que se pensa existir em todos os animais exceto nos insetos.
Este sistema é constituído por uma importante rede de neuromoduladores, chamados canabinóides endógenos. Ainda há muito para saber sobre este sistema, o que se sabe é que o nosso corpo está cheio de recetores de canabinóides (os primordiais são o CB1 e o CB2) que produzem moléculas que causam os efeitos físicos e psicológicos. Estes canabinóides endógenos, que são produzidos naturalmente no nosso corpo, interagem com os recetores de canabinóides regulando as funções relacionadas ao humor, metabolismo, apetite, resposta do sistema imunológico, memória e perceção da dor.
Resumindo, a principal função do ECS é ajudar o corpo a manter um estado de equilíbrio interno conhecido como homeostase.




Embora o corpo produza canabinóides endógenos, este sistema pode ser suplementado por canabinóides exógenos tais como os canabinóides derivados da canábis (como o THC e o CBD) ou ainda derivados da equinácia e da linhaça. Estes canabinóides exógenos são capazes de interagir com os recetores de canabinóides do nosso corpo, e é aqui que os estudos se têm concentrado, tentando descobrir em que medida estes canabinóides exógenos podem ajudar na promoção da saúde, sabendo-se já que os efeitos e o potencial terapêutico é muito grande. No que diz respeito ao THC, sabe-se que se liga aos dois recetores primordiais do ECS e que tem essencialmente efeitos psicológicos mas para além disto está comprovado que ajuda nas dores crónicas, náuseas, apetite, asma e glaucoma.

Já o CBD interage com os recetores de canabinóides de modo diferente, por esta razão tem diferentes ações terapêuticas. Ele não se liga diretamente ao CB1 e Inibe a ligação entre THC e CB1 neutralizando o efeito psicoativo induzido pelo THC, age a nível fisiológico e influencia o corpo a usar mais os seus próprios canabinóides. Os seus benefícios medicinais estão ainda a ser estudados. Sabe-se, no entanto, que o CBD ajuda a inibir o crescimento de tumores, reduz e previne inflamações, náuseas, diabetes, stress pós-traumático, ansiedade, insónias, depressão, glaucoma, alzeimer, esquizofrenia, artrite reumatoide, fibromialgia, esclerose múltipla, epilepsia e doenças cardiovasculares, serve também como anti psicótico, anti stress e analgésico para espasmos musculares e dor neuropática, porque promove o relaxamento muscular.


Potenciais Aplicações da Cannabis Medicinal em Ginecologia e Obstetrícia

Sabe-se que o ECS também desempenha um papel no equilíbrio hormonal feminino e nos processos reprodutivos, têm por isso, sido desenvolvidos inúmeros estudos que mostram que o uso desta planta tem resultados positivos em diversas afeções ginecológicas e obstétricas:

Dores Menstruais

Hoje, existem evidências sólidas sobre as propriedades analgésicas da canábis, tanto em estudos clínicos como na experiência dos pacientes. A pesquisa também confirma os efeitos anti-inflamatórios dos derivados da canábis, que podem contribuir para diminuir a dor. Atualmente, um número crescente de mulheres usa várias formas de canábis para tratar sintomas dolorosos como inflamação uterina e outros problemas relacionados com a menstruação, nos países em que é legal a sua comercialização.   
Apesar disso, nenhum estudo extenso investigou as propriedades antieméticas da cannabis durante a menstruação. Como já referido, o THC é conhecido pelas suas propriedades antieméticas, sendo utilizado no tratamento de doentes que fazem quimioterapia há anos. Também faltam pesquisas sobre os efeitos da canábis na dor menstrual, mas verificou-se que a interação entre THC e o estrogénio causa um aumento no nível de alívio da dor. Esse resultado leva à conclusão de que a canábis pode ser mais eficaz no alívio da dor em mulheres do que em homens.




Síndrome Pré-Menstrual

Há muito pouca pesquisa disponível sobre os efeitos da cannabis na TPM, apesar dos benefícios conhecidos para dor, tensão muscular, dor de cabeça e humor. As mulheres que vivem em regiões onde a canábis é totalmente legal podem facilmente experimentar produtos contendo THC e CBD para aliviar os sintomas da TPM relacionados ao humor. Em qualquer outro lugar do mundo, é possível usar os produtos CBD como tratamento para as condições mencionadas, incluindo transtornos de ansiedade e humor desencadeados pela TPM.

Endometriose

A endometriose é um problema de saúde bastante comum e doloroso, causando o crescimento do tecido interno do útero noutro outro local do nosso corpo, gerando fortes dores pélvicas e risco de infertilidade. A endometriose afeta cerca de 1 em cada 10 mulheres em todo o mundo durante os seus anos férteis.
Uma pesquisa recente descobriu que mulheres australianas com endometriose que usavam extratos ou flores de canábis, óleo de CBD, calor local e mudanças na dieta foram as mais bem-sucedidas em termos de redução da dor. Exercício físicos como ioga, alongamentos e outros foram classificadas como menos eficazes. Atualmente o remédio mais comum para o autocontrole da dor na endometriose ainda é o medicamento anti-inflamatório, embora esses medicamentos tenham efeitos colaterais significativos. 

Sexo

Um estudo constatou que 68,5% das mulheres que usaram canábis antes do sexo tiveram uma experiência mais agradável. Na maioria dos casos, as mulheres que usam pequenas quantidades desta planta experimentam um aumento no desejo sexual mas se são usadas doses mais altas de THC o efeito é negativo. O efeito positivo da canábis na ansiedade também se pode refletir na vida sexual, além de potencialmente aumentar a sensibilidade física. Embora o consumo de canábis durante o sexo sempre tenha sido popular, a pesquisa não forneceu evidências claras sobre exatamente como a experiência sexual é melhorada.   
De qualquer forma, as novas empresas envolvidas no negócio legal de cannabis, têm vindo a desenvolver produtos com canabinóides destinados a aumentar a vida sexual. Eles contêm THC ou CBD ou ainda uma combinação de ambos, e são vendidos sob forma de lubrificantes, cremes, óleos, supositórios e produtos comestíveis afrodisíacos doces. Os relatos dos pacientes são amplamente positivos, principalmente quando se trata de reduzir a dor durante ou após o sexo.

Gravidez

Como atrás referido, a medicina pré-industrial concluiu que o Indian Hemp tinha uma capacidade notável de aumentar as contrações uterinas durante o parto, além de ser benéfico nas hemorragias pós parto, mas não há ainda estudos conclusivos sobre esta matéria.
A Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, em Seattle, iniciou recentemente um estudo chamado “Estudo Moms+Marijuana”. Pela primeira vez, os pesquisadores estão a tentar avaliar se o uso de canábis para aliviar a náusea pré-natal é seguro para o desenvolvimento do bebé. Os resultados, que incluirão imagens do cérebro do feto em desenvolvimento, podem mudar a maneira como a canábis é encarada pela comunidade médica.

Menopausa

As mulheres na menopausa apresentam vários sintomas, muitos dos quais são difíceis de tratar imediatamente. Um crescente conjunto de evidências clínicas sugerem que a canábis e particularmente o CBD, tem o potencial de aliviar alguns sintomas da menopausa visto que as pesquisas têm vindo a mostrar que o Sistema Endocanabinóide regula o humor, o sono, a perceção da dor e muito mais.
Há também evidências científicas sobre o papel complexo do Sistema Endocanabinóide (ECS) na fertilidade feminina, sendo que as pesquisas estabelecem uma clara relação entre o estrogénio, o endocanabinóide anandamida e as funções do ECS. 
Além disso, pesquisas de laboratório mostram que os canabinóides podem ajudar a regular o desenvolvimento ósseo, reduzindo o risco comum de osteoporose pós-menopáusica, estas pesquisas indicam que o CBD pode ligar-se aos recetores de células ósseas, inibindo ou diminuindo o processo da perda de densidade óssea. Apesar da falta de evidências conclusivas, o uso de canábis mesmo durante a menopausa pode ajudar o Sistema Endocanabinóide a manter a homeostase.
Embora uma combinação adequada de THC e CBD possa ser mais eficaz para problemas da menopausa, o CBD sozinho foi documentado como sendo eficaz no tratamento de problemas de sono e humor na menopausa, sem exercer os efeitos psicóticos do THC.

Infelizmente, estudos mostram que as mulheres desenvolvem uma tolerância à cannabis mais rapidamente que os homens e são mais afetadas negativamente pelos eventuais sintomas de abstinência. Parece também que a área do cérebro que controla a "memória espacial" é mais afetada pelo consumo de canábis nas mulheres do que nos homens. Mas além desse facto, como qualquer substância, a canábis tem efeitos colaterais e pode não funcionar para todos da mesma forma.
A maioria das pessoas pode experimentar com segurança o CBD, é necessário mais cuidado ao tomar o canabinóide THC (pelos seus efeitos psicoativos).

Em Portugal existem já lojas que comercializam produtos feitos apenas à base de CBD extraído da planta da canábis. Há também um número crescente de plantações de canábis para uso medicinal, todas de investimento estrangeiro. As condições privilegiadas que estes investidores encontram em Portugal, como o clima, as horas de exposição solar, os terrenos baratos, a mão-de-obra qualificada e a preços competitivos, além da clareza na legislação, estão a atrair dezenas de interessados em tornar o país na porta de entrada para o mercado europeu de canábis medicinal.


Fontes

https://www.researchgate.net/publication/228559586_Cannabis_Treatments_in_Obstetrics_and_Gynecology_A_Historical_Review

https://news.weedmaps.com/2019/06/women-medical-cannabis-marijuana-health-gynecology-study/

https://www.royalqueenseeds.com/blog-cannabis-for-obstetric-and-gynaecological-health-from-antiquity-to-today-n1227

http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=4365

https://translate.google.com/translate?hl=pt-PT&sl=en&tl=pt&u=https%3A%2F%2Fbmccomplementalternmed.biomedcentral.com%2Farticles%2F10.1186%2Fs12906-019-2431-x&anno=2&sandbox=1


Imagens

http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/wp-content/uploads/2018/11/High-Times-in-Ancient-China.jpg

https://www.royalqueenseeds.com/img/cms/women-cannabis-growing.jpg

https://www.royalqueenseeds.cat/img/cms/period-cannabinoids-cannabis.jpg

http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/wp-content/uploads/2018/11/Cannabinoid-Profiles-Meet-Your-CBD-Receptors-3-The-Leaf-Online.jpg



Artigo escrito por Constança Castro, traduzido e editado por Jorge Ribeiro

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